O 1T26 começou com desinflação e real forte e terminou com o primeiro corte da Selic ofuscado por um choque de petróleo. No M&A, menos negócios e muito mais capital por operação.
O trimestre em quatro datas
Em março, o mercado encurtou o ciclo de cortes que esperava antes mesmo de ele começar. Para quem negocia empresas, o custo de capital alto deixou de ser transitório e passou a ser premissa.Leitura Magma
Cenário Global: o choque do petróleo interrompe o ciclo de alívio
Ativos emergentes subiram em janeiro e fevereiro. A guerra EUA/Israel–Irã, iniciada em 28 de fevereiro, levou o Brent acima de US$ 100 e congelou o Fed.
Federal Reserve, juros e inflação
- O FOMC manteve os Fed Funds em 3,50%–3,75% em janeiro e em 18 de março, por 11 a 1, após três cortes seguidos em 2025.
- O dot plot manteve um corte em 2026 e outro em 2027; o núcleo do PCE projetado subiu de 2,5% para 2,7%.
- Parte do mercado passou a ver mais chance de alta do que de corte em 2026. A troca no comando do Fed e a pressão da Casa Branca somam ruído.
Geopolítica e commodities
- Ataques à infraestrutura energética do Golfo e ameaças ao Estreito de Ormuz levaram o Brent a superar US$ 109 em 18 de março.
- Para importadores de petróleo, cada alta de 10% piora a conta corrente em 40 a 60 p.b. do PIB.
- O Brasil, exportador líquido, ganha termos de troca; a dívida emergente teve saídas pontuais em março.
Motores corporativos: IA e energia
- Os guidances de capex de 2026 divulgados em fevereiro somavam cerca de US$ 650–700 bi: Amazon (~US$ 200 bi), Alphabet (US$ 175–185 bi), Meta (US$ 115–135 bi) e Microsoft.
- Data centers tornam energia, transmissão e resfriamento o gargalo do ciclo, uma tese que se cruza com a segurança energética trazida pela guerra.
- O ciclo passa a ser financiado por dívida, comprimindo o fluxo de caixa livre das big techs.
O choque de oferta inverteu a narrativa de juros globais em queda. Para o Brasil, o efeito é ambíguo: mais inflação, mas também mais receita de exportação e um real resiliente.
Cenário Doméstico: atividade, política e fiscal
Quatro semanas de guerra somaram 40 p.b. à inflação esperada para 2026 e encurtaram o ciclo de cortes da Selic antes mesmo de ele começar.
Como a guerra redesenhou as projeções em março
Mediana do Boletim Focus e cenário do Itaú, antes e depois do choque do petróleo
Crescimento e inflação
- Atividade forte no início do ano: produção industrial +3% e varejo +2% em janeiro e fevereiro, segundo o J.P. Morgan.
- Consenso de PIB 2026 entre 1,5% e 2,0%: Focus 1,85%, FGV Ibre 1,7%, Itaú 1,9%.
- O IPCA subiu 0,33% em janeiro e 0,70% em fevereiro. Os preços administrados esperados passaram de 4,02% para 4,27%.
- Isenção do IR até R$ 5 mil e consignado privado sustentam o consumo, contra juros reais elevados.
Panorama político e regulatório
- A disputa Lula × Flávio Bolsonaro polariza o ano eleitoral; no 1T, o prêmio de risco ficou contido pelo recesso parlamentar e pelo foco no corte de juros.
- O Congresso tem calendário curto: segurança pública e medidas de renda dominam a agenda, e reformas estruturais ficam para 2027.
- Investidores globais viram o Brasil como exportador de petróleo com juro real alto, uma visão construtiva condicionada a inflação, dívida e eleição.
Fiscal, Selic e câmbio
- O Copom manteve a Selic em 15% em janeiro e cortou para 14,75% em 18 de março, menos que os 0,50 p.p. esperados antes da guerra. A projeção do BC para o horizonte relevante (3T27) ficou em 3,3%.
- O Focus vê déficit primário de 0,5% e nominal de 8,5% do PIB em 2026. O Itaú estima que estabilizar a dívida perto de 80% do PIB exigiria superávit primário próximo de 3%.
- O real oscilou entre R$ 5,16 e R$ 5,26 em março; o Focus manteve R$ 5,40 para dezembro, embutindo o prêmio eleitoral.
A Selic começou a cair, mas o ponto de chegada subiu. Com juro real perto de 10%, o comprador desconta fluxos a taxas altas, e o vendedor que esperava múltiplos de ciclo de queda precisa recalibrar.
Atividade de M&A: menos transações, muito mais capital
O Brasil fechou o 1T26 com 256 operações, 43% a menos que um ano antes, mas com valor agregado de US$ 17,7 bilhões, alta de 114%.
O número cai, o valor dobra
Volume vs. qualidade
- O capital existe, mas se concentra em ativos com escala, governança e tese clara de consolidação.
- Megadeals em telecom, transformação digital e IA explicam o salto de valor medido pela KPMG; o maior deal do trimestre, segundo a TTR, foi na saúde suplementar.
- Na região, compradores da América do Norte (75 deals) e da Europa (73) lideraram as aquisições inbound.
Valuation gap e proteção de risco
- Com Selic terminal revisada para cima, a taxa de desconto do comprador sobe, e o vendedor ainda ancora preço em múltiplos de 2024–2025.
- Ferramentas para fechar o gap: earn-outs atrelados a EBITDA, parcelas diferidas e vendor financing.
- Ferramentas de proteção: escrow, holdback, seguro de R&W e cláusulas MAC ligadas a commodities e ao calendário eleitoral.
Setores em destaque
| Setor | Sinal do trimestre |
|---|---|
| Imobiliário | Líder em número de transações no 1T26 (TTR Data) |
| Tecnologia, Software e IA | Segundo em número de deals; IA e automação sustentam o salto de valor (KPMG) |
| Telecom e Infraestrutura Digital | Megadeals em telecom e expansão de data centers de Microsoft, AWS e TikTok |
| Saúde Suplementar | Maior transação do trimestre na região, segundo a TTR |
| Energia e Transição Energética | Segurança energética volta ao centro da tese após a guerra no Golfo |
| Agro e Alimentos | Diesel e fertilizantes mais caros pressionam margens e favorecem consolidação |
Apetite dos investidores
- Private equity: apenas 17 transações, mas mais de US$ 3,1 bi mobilizados. Seletividade e foco em ativos maiores.
- Venture capital: 41 rodadas e apenas US$ 285 milhões, sinal de cautela e tickets menores.
- Estratégicos: principal fonte de liquidez para o middle market, financiando com balanço e capturando sinergias.
O 1T26 premiou o ativo pronto: dados auditados, governança e tese defensável. Para o middle market, a janela pré-eleitoral exige preparação antecipada e estrutura de preço criativa.
Matriz comparativa de projeções consensuais
Quem revisou cenário depois de 28 de fevereiro convergiu para IPCA entre 4,3% e 4,7% e Selic terminal entre 12,25% e 13%. Projeções anteriores à guerra ainda viam inflação abaixo de 4%.
| Indicador econômico (2026) | Itaú Unibanco | Bradesco / BTG | XP / J.P. Morgan | Focus (30/mar) |
|---|---|---|---|---|
| Crescimento do PIB | 1,9% | — / 1,7% | 2,0%¹ / 1,5% | 1,85% |
| Inflação (IPCA) | 4,5% | 3,8%¹ / 4,7% | 3,8%¹ / — | 4,31% |
| Taxa Selic (fim de 2026) | 13,00% | 12,00%¹ / 13,00% | 12,50%¹ / 12,25% | 12,50% |
| Câmbio (USD/BRL, fim de 2026) | R$ 5,40 | — / R$ 5,20 | R$ 5,60¹ / — | R$ 5,40 |
| Resultado primário (% PIB) | −0,8% | — / −0,4% a −0,5%¹ | — | −0,50% |
| Dívida (% PIB) | ~80%² | — / ~83,6%³ | — | — |
- Projeção publicada em janeiro ou fevereiro, antes do choque do petróleo.
- Nível em que o Itaú estima ser possível estabilizar a dívida, com superávit primário próximo de 3% do PIB.
- Dívida bruta, segundo a visão do BTG para 2026 publicada em janeiro. A maioria das casas publica dívida bruta (DBGG), não líquida.
- Itaú: revisão de cenário de março. BTG: relatório macro de abril, base fim do 1T. J.P. Morgan: atualização de início de abril. “—” indica dado não divulgado ao público na janela.
Onde estão as divergências
- Selic: o J.P. Morgan é o mais otimista (12,25%), apostando em credibilidade para chegar a 10% em 2027; Itaú e BTG veem 13%.
- PIB: amplitude de 0,5 p.p. entre J.P. Morgan (1,5%) e XP (2,0%), com o efeito estatístico do 1T forte no centro do debate.
- Câmbio: o BTG vê o real mais forte (R$ 5,20) com termos de troca favoráveis; Itaú e Focus embutem prêmio eleitoral (R$ 5,40).
Recomendação de alocação por classe de ativos
A visão consolidada dos research ao fim do 1T26 privilegiava carrego com proteção inflacionária. A XP sugeria cerca de 55% em renda fixa, 40% em ações e 5% em alternativos.
| Classe | Posição | Racional |
|---|---|---|
| IPCA+ (vértices intermediários) | Sobreponderar | Juro real elevado e hedge contra o choque de combustíveis; evitar alongamento excessivo em ano eleitoral |
| Pós-fixados (CDI) | Neutro | Carrego alto com Selic acima de 14%; perde atratividade conforme o ciclo avança |
| Prefixados | Seletivo | Ciclo de cortes mais curto reduz o ganho esperado com o fechamento da curva |
| Ações defensivas e exportadoras | Sobreponderar | Brasil exportador de petróleo; energia, bancos e utilities com dividendos |
| Exposição internacional | Manter | Diversificação contra risco fiscal e eleitoral; tese de IA e infraestrutura nos EUA |
| FIIs de papel e infraestrutura | Preferir | Recebíveis indexados ao IPCA, infraestrutura e cadeias agroindustriais (carteira BTG de abril) |
| FIIs de tijolo | Cautela | Taxa de desconto alta por mais tempo pressiona o valor dos imóveis |
| Commodities (energia) | Hedge tático | Proteção geopolítica, com risco de reversão rápida em caso de cessar-fogo |
A duração do conflito no Golfo. Um cessar-fogo derruba o petróleo e reabre espaço para cortes maiores da Selic.
Contaminação do choque de combustíveis para alimentos e serviços, levando a Selic terminal acima de 13%.
Esta seção sintetiza recomendações públicas das instituições analisadas e não constitui recomendação individual de investimento.
Fontes utilizadas
Relatórios e publicações de análise econômica, política e de transações corporativas divulgados entre janeiro e início de abril de 2026.
- Itaú UnibancoItaú Macro Research, Cenário Macro Brasil de fevereiro e março e Macro Brasil · Copom de 18 de março
- BradescoPesquisa Macroeconômica, cenário de janeiro de 2026
- BTG PactualBTG Macro & Strategy, visão de janeiro e relatório macro de abril; Carteira de FIIs de abril
- XP InvestimentosXP Macro, relatório mensal de fevereiro, e Estratégia de Alocação
- J.P. MorganLatin America Economic Research e Global & Emerging Markets Research
- FGV IBREBoletim Macro, março de 2026
- Banco Central do BrasilBoletim Focus e comunicados do Copom de janeiro e março
- Federal ReserveComunicado do FOMC e Summary of Economic Projections de 18 de março
- Aon, TTR Data e DatasiteRelatório de M&A na América Latina, 1T26
- KPMGPesquisa Trimestral de Fusões e Aquisições, 1T26
Este relatório tem caráter exclusivamente informativo e reflete projeções e consensos publicados no 1º trimestre de 2026, sem incorporar dados realizados posteriormente. Não constitui oferta, recomendação de investimento ou aconselhamento financeiro, jurídico ou tributário. As opiniões identificadas como “Leitura Magma” representam a visão da Magma Transações Societárias na data de referência.